A Ética na Antiguidade

Artigo Cientifico sobre “A Ética na Antiguidade”, apresentado pelos alunos Guilherme Padilha Leita e Pedro Augusto Aroucha, do Curso de Direito noturno, disciplina Filosofia Geral.
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo expor o conceito de ética e explicá-lo a partir da ótica de grandes pensadores do período da Antigüidade Clássica, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles e Pitágoras. É importante relacionar e estabelecer uma distinção entre os conceitos de Ética e Moral, os quais muitas das vezes podem ser confundidos. Ao final, pretende-se relacionar os diferentes princípios éticos apresentados na ótica do período antigo com aspectos contemporâneos da realidade social da qual fazemos parte. Conhecer o passado é necessário para que possamos compreender de que forma os filósofos antigos contribuíram para a evolução do pensamento ético ocidental. O enfraquecimento dos princípios éticos, tanto no ambiente familiar quanto no ambiente de trabalho do homem contemporâneo, faz com que a ética seja um assunto atual e de fundamental importância.
Palavras-chave: Ética. Virtude. Moral. Pensamento.

1 INTRODUÇÃO
A ética acompanha o ser humano desde os seus primeiros passos rumo à vida em sociedade. Ao longo dos séculos, a ética foi sofrendo transformações em sua definição e muitas doutrinas, tanto religiosas quanto científicas, buscaram formar os seus próprios princípios éticos para justificar suas determinações, como se pode observar na ética cristã e, pelo lado científico, a ética utilitarísta.

A palavra ética se ramifica em diversos significados e não tem o mesmo sentido para todos.

Para os filósofos gregos, o significado da palavra “ética” era radicalmente oposto à noção atual da sociedade moderna. Apesar de todas as diferenças, ambas as concepções enfatizam uma questão em comum: a busca pelo bem, isto é, a vida em felicidade (NOVAES, 2002, p. 7).

Ética e Moral são conceitos que se completam, mas, de forma alguma, devem ser confundidos. A Ética pode ser entendida como um conjunto de princípios teóricos que fundamenta ou crítica determinada conduta social. Já a Moral pode ser compreendida como sendo um conjunto de práticas e comportamentos convencionados por determinado grupo social. Ou seja, a Ética é o fundamento da moral.

Para os romanos, a palavra “ethos”, quando traduzida para o latim, transformava-se em “mores”, a qual deu origem à palavra “moral” em português. Essa semelhança de significados, somada à mudança da etimologia da palavra, fizeram com que a Moral e a Ética fossem tratadas, em algum momento da história, como sendo a mesma coisa. A Ética é calcada na reflexão, no intelecto. É uma filosofia moral e, assim, é constituída por teoria. A Moral é um conjunto de ações, ou seja, é baseada na questão prática, nos costumes, na atitude e no comportamento do ser ou de determinado grupo atuante na sociedade.

Fazendo-se uma analogia, pode-se fazer uma clara distinção entre os dois conceitos. Imaginemos uma casa ordinária como sendo a representação da Ética e da Moral. O acabamento, a pintura da casa e todos os fatores externos visíveis que caracterizam a casa representam a Moral. A Ética está presente na estrutura que mantém a casa estável e firme, ou seja, as colunas, os pilares, as vigas e tudo aquilo que não é visível de imediato; assim, os princípios éticos dão sustentação e embasamento à Moral, ou seja, justificam, criticam ou afirmam o exercício da Moral.

2 A ÉTICA E A FILOSOFIA
O modo de vida do Ocidente foi intensamente influenciado pelos princípios éticos forjados na Antigüidade Clássica, principalmente pelos gregos. A ética surge no contexto histórico do surgimento da filosofia, entre os séculos VII e V a.C (CHALITA, 2002).Apesar de esses princípios ainda estarem presentes no cotidiano ocidental, a dúvida acerca do que significa, realmente, a ética e seus valores, e qual a importância desta para a organização de uma civilização, são questões que ainda permeiam o pensamento contemporâneo e faz-se necessário um esclarecimento.

A evolução do pensamento grego é evidenciada na transformação do pensamento mitológico, calcado nos ensinamentos dos mitos, para o pensamento racional, calcado na busca da razão para explicar os fenômenos. Essa mudança de concepção acabou por influenciar a visão do grego a respeito da própria conduta humana em relação aos outros cidadãos, gerando, assim, uma racionalização do comportamento humano (CHALITA, 2002).

Segundo o dicionário, a ética consiste em: “Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal. É o conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser humano”. (AURÉLIO, 2001, p.300).

No vocabulário grego, a palavra “ética” deriva do termo “ethos”, o qual pode ser entendido como o caráter moral ou um conjunto de valores, atos, costumes que definem uma determinada sociedade ou cultura. Por ser um tipo de ciência normativa, muitos autores consideram a ética como sendo uma filosofia moral.

O destaque dos gregos na concepção de ética deve-se ao fato de eles terem sido o primeiro povo a racionalizar a conduta humana. Dessa forma, percebe-se a íntima relação entre o surgimento da Filosofia e o início da concepção de ética. (CHALITA, 2002). A mudança do pensamento mitológico para o pensamento racional implica na mudança de concepção acerca das atitudes do ser humano em relação à vida em sociedade e aos fenômenos sociais.
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2.1 A ética segundo Sócrates
O pensamento ético segundo Sócrates influenciou de forma impactante todo o período clássico, tendo em vista que pensadores como Platão e Aristóteles vão beber na fonte de suas idéias. Sócrates, segundo o filósofo Paulo Ghiraldelli, inaugura uma nova forma de pensamento, através do método da maiêutica, daquela proposta na época pelos sofistas: estes acreditavam que a verdade dependia diretamente da forma como era apresentada, ou seja, a manipulação da informação através da oratória e da eloqüência era o que importava. Para Sócrates, tal prática era impensável. O conhecimento no pensamento socrático é a grande virtude do ser humano, e a educação consiste no principal meio de formar cidadãos conscientes e ativos na sociedade.

O homem virtuoso é aquele que busca incessantemente pelo conhecimento. A ignorância, ao contrário, é o próprio erro e deve ser evitada. No entanto, Sócrates evidencia o eterno processo de educação do ser humano através da frase “Só sei que nada sei”. Ou seja, ele reconhece sua própria ignorância e afirma, assim, que o homem deve sempre buscar alcançar a virtude necessária, ou seja, o conhecimento.

Além de ser a virtude em si, o conhecimento também proporciona, segundo Sócrates, um esclarecimento a respeito do próprio “eu”. Para conhecer o mundo, o indivíduo necessita conhecer a si mesmo, segundo a frase: “Conhece-te a ti mesmo”. Conhecendo o mundo e a verdade, o homem conseguiria chegar ao estado de felicidade plena.

O pensamento socrático também é permeado pela ética do respeito às leis. Para Sócrates, obedecer às leis existentes era o que separava o estado de barbárie e desordem da sociedade, do estado civilizado e ordenado. A obediência dos indivíduos vivendo em sociedade, e suas atitudes visando aos outros cidadãos e ao bem da maioria, era o que dava coesão e ordem social. Assim, o aspecto coletivo da sociedade é superior ao plano do indivíduo, do ser.

A ética de Sócrates é a chamada ética intelectualista. Isso se deve ao fato de que o pensamento socrático atribuía razões originárias da mudança de pensamento às mudanças de comportamento dos indivíduos. Ou seja, as ações são explicadas do ponto de vista do conhecimento, de pensamento. Um ato moralmente condenável não podia ser explicado de outra forma a não ser através da análise da mudança de pensamento, da razão a qual justificou a ação tomada.

O pensamento humano dá um importante salto a partir das considerações do filósofo grego Sócrates. O homem passa a ter uma postura mais racional e autônoma em relação ao conhecimento e às condutas humanas, contrariando os pensamentos dos sofistas que acreditavam ser possível convencer tudo e todos a respeito de uma suposta verdade.

2.2 A ética segundo Platão
A grande maioria da população costuma apresentar uma visão bem dualista ao que se refere à relação entre corpo e alma, ou seja, uma clara oposição entre o lado sensível, o corpo, e o supra-sensível, a alma. O corpo assim agindo como um impedidor tanto do conhecimento quanto da moral.

O corpo não é somente o receptáculo da alma, mas também é o lugar onde à permite realização de funções física, lhe dando assim, vida. Fora isto, o corpo é também um lugar de aprísionamento da alma, lhe limitando, vindo a impedir tanto o desenvolvimento ético como cognitivo. É da existência do próprio corpo limitando, que se originam todos os males que cercam nossa convivência: inimizades, ódio, loucura, doenças e até mesmo amores em excesso.

Alguns princípios da ética platônica estão ligados à distinção entre o corpo e a alma, gerando agora uma distinção metafísica, com o corpo como ser sensível, e alma como inteligível. Esses valores também sofrem uma hierarquização de modo que: Em primeiro lugar, estão os princípios que se assemelham ao divino (ele acredita que ao tentarmos nos aproximas do divino, nos tornamos mais virtuosos). Em segundo lugar, estão os princípios ligados à nossa alma( por acreditar que a alma é o bem mais divino que possuímos, por ser o mais individual). Em terceiro lugar, estão os valores do corpo considerados vitais. E em quarto lugar, os valores externos ao nosso corpo, como a fortuna e as riquezas.

Platão também considera que em todo homem, há duas partes, uma superior, que ordena (a alma) e outra inferior, aquela que serve (o corpo). Pensando nisso, os prazeres da carne, por serem ligados aos sentidos do corpo, são totalmente desvalorizados, e se formos pensar de forma mais radical, o corpo submetendo a alma à realização dos prazeres corporais, estaria rompendo com a idéia anterior, da superioridade da alma em relação ao corpo, sendo responsável assim, pela existência de muitos, se não todos, os males e vícios.
Desta forma, o prazer aprisionaria a alma no corpo, e ao corpo, fazendo com que ela seja escrava do corpo em uma vida apenas dedicada a satisfação de prazeres corporais, e impedindo de que seja usufruída a pureza como fazer todas as almas que conseguem se libertar de seus corpos limitantes.

Em uma de suas obras, a República, Platão ele nomeia três espécies de prazeres, e os relaciona diretamente à partes da alma: Prazeres ligados às riquezas (próprios da parte apetitiva da alma); prazeres ligados à sentimentos de sucesso, como honra e a vitória( próprios à parte impulsiva); prazeres ligados ao conhecimento( próprios da parte mais racional de nossa alma). Platão também termina considerando os prazeres ligados ao conhecimento, superiores tanto aos prazeres ligados aos sentimentos de sucesso quanto aos ligados à riqueza, por estes seres independentes do corpo, não seria necessária a partição do corpo para que haja este prazer cognitivo, é algo que já possível apenas com a parte inteligível de nosso corpo.

A ética platônica tem como objetivo conduzir o homem para a realização do bem. Diante disso, sua vida e seus objetivos não podem ser traçados em busca do prazer, mas em busca de uma existência o mais próximo da divina, ou seja, virtuosa, e para que isso aconteça, devemos deixar nossa alma, nossa parte mais divina, guiar nosso corpo , deixando de lado os prazeres, tanto ligados à carne quanto a riqueza, para que possamos nos focar na racionalidade proveniente da alma.

“A alma do verdadeiro filósofo, abstém-se, o mais possível, de prazeres, de desejos e de medos, considerando que aquele que se deixa cativar além da medida pelos prazeres, não recebe um mal tão grande como se ficasse enfermo ou gastasse parte de suas riquezas para satisfazer às suas paixões, mas recebe o mal maior que imaginar se possa e não ai na conta disso.” – dialogo Fédon, 83 b-e.
2.3 A ética segundo Aristóteles
O pensamento aristotélico a respeito da ética é pautado na grande questão de como o homem deve viver a sua vida. Ao contrário de Platão e Sócrates, Aristóteles não busca fazer uma análise intelectualista a respeito do que é ou deixa de ser a chamada virtude do ser. Seu propósito é descobrir de que forma o homem torna-se virtuoso e o que o motiva a cultivar um bom caráter.

Para Aristóteles, a virtude tem origem no exercício prático, ou seja, na ação humana (práxis). Um homem virtuoso demonstra seu valor e suas virtudes através de suas ações, como afirma no livro II da Ética a Nicômaco:
Este estudo não é teórico como os outros (pois estudamos não para saber o que é a virtude, mas paia sermos bons, já que de outra maneira não tiraríamos nenhum benefício dela). Devemos examinar o que é relativo às ações, como realizá-las, pois elas são as principais causas da formação dos diversos modos de ser.

O hábito e a conduta humana são meios para que o homem consiga tornar-se virtuoso. Para Aristóteles, a felicidade, ou eudaimonia, era o bem final, ou seja, aquilo que motivava os seres humanos a tomarem certas atitudes. O indivíduo deve perseguir a felicidade, a qual consiste no bem maior, privilegiando os prazeres do espírito aos prazeres corporais e efêmeros, em função da limitação desses prazeres do corpo e de sua maior semelhança com os prazeres animais, ou seja, do instinto humano. Aristóteles relaciona a natureza das ações do ser com a sua própria virtude, concluindo que aquelas ações que são justas e moderadas só poderão ser concebidas dessa maneira se um homem justo e moderado puder realizá-las.

Na visão aristotélica, o ato próprio de cada ser buscando a felicidade como fim é equivalente à sua essência, e tal essência é encontrada na alma do ser. A alma, segundo tal pensador, possui uma parte racional e uma parte irracional. Dessa forma, as virtudes, que são disposições adquiridas através do comportamento do ser, também se ramificam em duas espécies: as virtude éticas e as virtudes intelectuais. Estas desenvolvem-se através do ensino, do aprimoramento do intelecto, derivam do pensamento e requerem experiência e tempo. Já as virtudes éticas, ou do caráter, são adquiridas pelos costumes, através da prática cotidiana (éthos) e representam a excelência (areté) em si. Algumas das virtudes éticas, segundo Aristóteles, são: a temperança, a coragem, a justiça, a calma, a modéstia, a liberalidade, o justo orgulho, dentre outras.

A alma só existe quando em conjunto com o corpo. Dessa forma, a alma é afetado pelos fatores externos que, por vezes, podem dominar o corpo, tais como o ódio, a raiva, o medo, a coragem, a inveja, a alegria, o amor, em geral tudo o que venha acompanhado de prazer e dor. O homem virtuoso é aquele que consegue ter controle sobre suas paixões, ou seja, consegue obter um uso mensurado de seus desejos e impulsos que o acompanham durante a vida. A ética, para Aristóteles, não é algo que pode ser ensinado. Um sistema moral é algo impensável e impossível de ser concretizado. A conduta ética deve ser interior
e, assim, particular.

Por isso que, para o pensamento de Aristóteles, ética não é ciência, pois não pode ser ensinada, como o afirma no livro II de Ética a Nicômaco:
Se as virtudes estão relacionadas com as ações e as paixões, e o prazer e a dor acompanham toda paixão, por esta razão a virtude estará relacionada com os prazeres e as dores […] todo modo de ser da alma tem uma natureza que está implicada e ligada as coisas pelas quais se faz naturalmente pior ou melhor, e os homens tornam-se maus por causa dos prazeres e dores, por procura-los ou evita-los […] é por isso que alguns definem também a virtude como sendo um estado de impossibilidade e serenidade; mas não a definem bem, porque se fala de um modo absoluto.

Outro aspecto importante da ética segundo Aristóteles é o teleologismo. É necessário saber qual é o télos (palavra grega que significa finalidade, propósito, fim ou objetivo) de determinada prática social. Por exemplo: as flautas são instrumentos musicais. Para que servem os instrumentos musicais? Para serem tocados de maneira adequada. £ as melhores flautas? Para que servem? Ora, as melhores flautas pertencem aos melhores flautistas, pois estes têm uma maior capacidade de proporcionar aos ouvintes a melhor música. Aristóteles afirma que, para determinar a justa distribuição de um bem, faz-se necessário conhecer o télos daquele bem que está sendo distribuído.

Dessa forma, o próprio conceito de justiça é teleológico segundo Aristóteles, tendo em vista que para que os direitos sejam determinados, faz-se necessário saber o télos de determinada prática social. Quando conseguimos compreender o télos de uma prática social, significa que estamos conhecendo as virtudes que ela deve honrar; ou seja, o conceito de justiça, segundo o pensamento aristotélico, também é honorífico. Assim, justiça é dar às pessoas aquilo que elas merecem, de modo que cada um receba o que lhe é devido.

2.4 A ética segundo Pitágoras
Pitágoras foi um grande reformista moral e político da Antigüidade. Nascido em Samos, atuou em diversas áreas do conhecimento, sendo assim matemático, filósofo e moralista. Seus pensamentos não possuem escritos, mas foram transmitidos oralmente por seus seguidores ao longo dos séculos. A chamada escola itálica é uma das grandes contribuições de Pitágoras ao conhecimento humano. Ao que tudo indica, a doutrina ética de Pitágoras tornou-se conhecida através dos escritos de terceiros, ou seja, de seus seguidores.
Um dos únicos documentos que guardam o pensamento ético de Pitágoras são os chamados Versos de Ouro. Estes foram elaborados ao longo dos séculos, datam do século III d.C e englobam todo o pensamento pitagórico a respeito da conduta humana e do comportamento do homem frente à sociedade. Segundo o verso número 38 dos Versos de Ouro: “Não seja avaro. Em tudo o preferido é ajusta medida.” Tal passagem evidencia, de forma clara, a principal norma ética do pitagorismo: a moderação.

A educação como aspecto intelectualizante também foi marcante no pensamento da escola pitagórica. O saber era tido como um purificador da alma do ser, como pode se observar em um dos principais fragmentos dos Versos de Ouro: . Saiba que estas coisas são assim, e acostuma-te a dominar estas outras.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo desse trabalho foi expor o conceito de ética através dos pensamentos e reflexões dos principais filósofos da Antigüidade Clássica, como Sócrates, Platão, Aristóteles e Pitágoras de Samos. Apesar de ser um estudo histórico e de longa data, a discussão a respeito da influência da ética no pensamento contemporâneo ocidental é uma questão de fundamental importância.

Marilena Chauí afirma que, em todo o Brasil, há uma “crise” dos valores morais. Isso porque há um crescente desaparecimento do dever-ser, do comportamento ético dos indivíduos tanto na vida pública, quanto na vida privada. A própria sociedade deixou de cultivar certas virtudes e comportamentos necessários a uma vida verdadeiramente ética.

A autora húngara Agnes Heller constatou a existência de três linhas distintas de pensamento sobre a ética. Segundo Heller, existe a ética niilista, a qual afirma que não existem valores morais universais e válidos para todos os homens, contrariando, assim, a concepção ética dos filósofos da Antigüidade.

A corrente universalista-racionalista, a qual afirma a existência de princípios dotados de racionalidade e universalidade (influência do pensamento iluminista). E a vertente chamada de pragmática que defende que a sociedade contemporânea conseguiu, com certo sucesso, conservar valores morais necessários como justiça e liberdade. Somos intensamente bombardeados diariamente pelas três concepções e é isso o que caracteriza a chamada “crise” dos valores morais. (CHAUI, 2002, p. 346).

A modernidade, influenciada pelo movimento da Ilustração, acreditava no poder supremo da razão como forma de libertação do homem ao que o faz regredir, como a superstição e a ignorância. Na chamada pós- modernidade, a visão a respeito da razão têm, gradativamente, se modificado em relação ao que pensavam os antigos filósofos.

A ecologia, ou o movimento ecológico, é uma das principais contestadoras do pensamento estritamente racional e instrumentista, o qual utiliza-se dos bens naturais para promover o progresso através do uso da razão sem nem ao menos se preocupar se os princípios adotados são eticamente firmes ou não. A modernidade exaltou o homem e o indivíduo (liberalismo), o embate das classes sociais (no socialismo e no comunismo) ou o homem e os movimentos sociais (anarquismo).

A pós- modernidade fala nas pessoas, ou seja, no negro, índio, idosos, crianças, dando ênfase ao conceito de alterídade, do outro. (CHAUI, 2002, p. 346). O ser é diferente e é isso o que o toma único e insubstituível. O aspecto pluralista da sociedade é latente: relações sociais tornaram-se superficiais, os objetos são descartáveis, o ritmo do consumo é ditado pelo mercado da moda, o qual se modifica constantemente visando justamente aumentar o consumo cada vez mais daqueles que são levados por essa “onda consumista”. O tempo ganhou a conotação monetária na frase “Time is Money”, comprimindo espaço e tempo em um frenesi de oportunidades.

A Ética, segundo o pensamento da Antigüidade, era forjada através da virtude e buscava a felicidade como fim. O comportamento virtuoso tinha que estar em conformidade com a natureza do próprio ser (éthos). Nesse período, o homem é considerado racional por natureza. Dessa forma, tem a capacidade e a necessidade de controlar os seus desejos, impulsos ou, como afirma Platão, suas paixões.
Apesar de Platão, Aristóteles, Sócrates divergirem a respeito do que seja a virtude, as paixões, as coisas da Natureza e a própria razão, todos eles tinham um ponto em comum: acreditavam que o ser humano é racional, tem como fim a felicidade e busca ser virtuoso e ético através do comportamento em conformidade com sua natureza (éthos). Ou seja, a admissão de uma ordem universal das coisas, de um cosmos racional e ordenado, no qual estão inseridos todos os homens e todas as coisas.

O homem, auxiliado pela razão, poderia adotar princípios éticos seja na ordem familiar, política, social ou mesmo do mundo. Justiça, felicidade, serenidade e diversos outros valores deveriam estar em conformidade com a ordem individual, política, social e cósmica do ser. Hegel definiu a sociedade clássica grega como a época da “bela totalidade ética”. Tal totalidade nunca existiu de fato. Porém foi desejada incessantemente pelos gregos para adequar os homens no limite daquilo que era considerado justo e correto. E até hoje persiste na busca do homem contemporâneo por valores morais sólidos e que possam lhe proporcionar uma vida em sociedade segura e harmônica.

REFERÊNCIAS
CHAUI, Marilena. Público, privado, despotismo. In: NOVAES, A.; AMARAL, J. J. de. (Coord.). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. P. 345-390.
FERREIRA, Aurélio B.de Holanda. Minidicionário da língua portuguesa. 4. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
NOVAES, Adauto. Cenários. In: NOVAES, A.; AMARAL, J. J. de. (Coord.). Ética. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. P. 7- 15.
SANDEL, MICHAEL J. Justiça: O que é fazer a coisa certa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.
SILVA, Sandro. A ética das virtudes de Aristóteles. São Leopoldo: UNISINOS, 2008. 78 p. Dissertação (Mestrado) – Curso de Pós Graduação em Filosofia, Centro de Ciências Humanas, Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2008.
VENÂNCIO, Matheus. A Ética Platônica. Disponível em:
. Acesso em: 26 dez. 2014.
MIGUEL, Maurício. A Ética Platônica e Aristotélica. Disponível em:
. Acesso em 26 dez. 2014.


Este artigo foi publicado em quarta-feira, janeiro 14th, 2015 às 13:02 na categoria Filosofia. Você pode acompanhar os comentários deste artigo pelo RSS 2.0 feed. Você pode deixar um comentário, ou trackback por seu site.


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